quarta-feira, 27 de outubro de 2010

gênero não me pega mais.



Eu não quero sentar aqui e escrever só mais um texto direcionado a alguém. Não quero repetir na minha cabeça todos os conceitos que criei em relação a envolvimentos, aproximações e afinidades. Isso tudo se anula e se renova o tempo todo e tudo que tentamos fazer é inevitável, as coisas sempre mudam.

Eu posso falar dos meus miados, dos nossos gatos, da tua barba, tua pouca calma, mas que não chega a ser pressa. Posso lembrar as manhãs de sol que tu me fez olhar depois de tanto tempo sem ver essa luz do dia. Das nossas caminhadas cansadas, por rir ou falar demais. Sei que posso demonstrar minha insegurança em atravessar ruas e segurar tua mão com mais força sem parecer criancice. Tuas bem mais que 10 cicatrizes me passam conforto e me fazem ser mais tolerável com as minhas tão escondidas e inofensivas.


Eu sei que não convenço fácil, que não demonstro tanto apego e até fico embirrada com isso. Mas é tudo camuflagem, insegurança pessoal, falta de costume depois de tantos anos me divertindo sozinha. Meus anos de idas e vindas, e esses dois últimos que passaram que mereceram ser detalhados depois de tanta coisa mudando em mim, depois dos medos e dos choros, dos pontos e arranhões, dos tombos e aplausos. Das cicatrizes marcando no corpo pra nunca mais esquecer, batendo na cara pra aprender e chorando pra ver se a dor passa.


Não nego que tenho medo de te descrever, fiquei semanas girando na cama igual frango assado, sentindo a insônia, ouvindo a grama crescer pra não vim pra cá e te jogar nesse texto, aceitar me permitir e ver isso tudo que passa de mim pra ti todos os dias. Porque pra mim quando acaba sempre vira escrita, mas ainda é o início e eu tenho o direito de mudar o rumo disso tudo que criei até agora. Direitos direitos, sentimentos a parte. Pode deixar que daqui pra frente eu mesma costuro meus botões caídos.

Naiana Cescon Lemes.

sábado, 9 de outubro de 2010

deve ser o tal deus que todos falam.



Quando paro um pouco por dentro e olho pra fora, o agora é o único momento que me sinto segura. Lágrimas de passado morto e de futuro incerto. Mas já não depende tanto de mim, certas e muitas, muitas coisas dependem do tempo. Os tempos são outros, deve ser difícil pra ti aceitar isso tudo. Mas não podemos continuar assim, tem dias que não te suporto.

Passa em partes, acelera algumas coisas sem envelhecer outras. Olha pra mim que sempre temi com velhice e certeza, de que  não viveria muito tempo. Tu que me acompanhou a vida inteira com essa sensação engasgada na garganta me dizendo que eu tinha que acelerar se quisesse viver. Que eu tinha que crescer logo senão não teria mais corpo e mente andando junto. Me joga na cara que se eu perder esse equilíbrio são poucos os que se acham depois. Foi assim, desse jeito mesmo que aprendi a ouvir mais do que falar. Foi o modo mais seguro que achei, pra quando me perder conseguir sempre te encontrar e conseguir ir mais fundo, não olhar só teu olhar com pupila dilatada.

Sempre me olhou de costas e eu sempre, todas as vezes me perguntei se a covardia era minha ou tua. Agora que me pergunto qual de nós estava de costas e já não tenho certeza de nada. Eu quero saber se sou eu quem te move ou tu age de livre espontânea vontade. Tem pernas ou asas, ou não tem nada? Fica parado ou se move de acordo com a energia? É do contra ou a favor? Favor de que?

Não existe nada mais lento, mais apressado, mais agoniante do que te esperar. E não existe sensação mais livre, mais leve, pura e natural do que te sentir. Te sentir ficando com clareza nos olhos. Te ver voltando e dizendo que agora será diferente. Tu anda em sequência ou pula: um tempo bom, tempo ruim, tempo bom, tempo ruim?

Leva e trás, seca e molha. Cura, muda, apaga, destrói, faz nascer, faz morrer. Tu deve ser o tal deus que todos falam.  Lágrimas te correm na cara nos dias de chuva? Pois pra mim sim, culpa tua que demora ou passa. Nunca fica, vai embora sem deixar aviso, depois volta com um sorriso estampado como se nada de ruim tivesse acontecido e eu ainda tenho que te aceitar sem outra opção. Acontece que os teus tempos são outros, eu mudo toda vez que tu vai e volta. Tu me exige demais e depois me manda parar. Que poder é esse que tu tem sobre mim? Eu nem te conheço.

É bem tua cara mesmo ser masculino. Só não te apressa demais e nem te mongueia muito. Não tenho interesse em coisa parada mas também não acelera demais. Eu sei, eu sei, tu não me pertence, mas me dá tua mão vamos andar juntos, senta aqui toma um café comigo e depois vamos caminhar um pouco ouvindo música. Se não for eu te exigir mais adaptação vai ser outro alguém um pouco mais pra frente. É isso mesmo, adaptação é o que tu precisa, tu não sabe viver de um jeito só, senão não inha e vinha o tempo todo.

Porque não me olha? Não me responde? Te assusto com as tantas perguntas que te faço? Tu tem medo de quê? Quem é que te confunde e não te deixa decidir o que tu quer?
Quantas mágoas e corações tua alma segura, hein tempo?

Naiana Cescon Lemes.